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LUCAS ABUD: DE CAMPINAS PARA A FRANÇA

Com apenas 23 anos, jogador da seleção brasileira de Rugby já leva na bagagem reconhecimento e experiência internacional

Por: Cristiane Bergamini

Nessa entrevista exclusiva, durante um treino coletivo, no dia 2 de dezembro, na Estância Montagner, em Campinas-SP, que envolveu quatro escolas públicas da região (Escola Estadual Deputado Jamil Gadia, Escola Estadual Professor Hildebrando Siqueira,  Escola Estadual Professor Messias Gonçalves Teixeira e Escola Estadual Miguel Vicente Cury), pelo projeto RUEPV – Rugby uma escola para a vida; o jogador da seleção brasileira de Rugby, Lucas de Andrade ou Lucas Abud, como é conhecido, fala sobre sua carreira, perspectivas para o esporte no Brasil e a volta do Rugby nas Olimpíadas. Confira!

RUEPV: Lucas Abud, como o Rugby surgiu na sua vida?

Lucas Abud (LA): O Rugby surgiu na minha vida em 2007 quando, com 13 anos, assisti na TV algumas das partidas da RWC e, assim que vi, me empolguei com o esporte. Minha mãe, na época, procurou um lugar para treinar, e achamos uma clínica do Jequitibá, com o Carlos. Desde então, nunca mais parei.

 

RUEPV: Por que você escolheu seguir uma carreira no Rugby? O que o atraiu no esporte?

LA: Na verdade foi o Rugby que me escolheu. O objetivo não era ter o esporte como carreira, mesmo porque, até muito pouco tempo atrás, ainda era amador no Brasil. Não que eu não sonhasse em ser um atleta profissional, mas o sonho era distante. Em 2012, fui convocado pela primeira vez para a seleção adulta. Ainda aí, nada profissional, por muito tempo no amador e, em 2015, a CBRu deu início ao projeto de alto rendimento para profissionalização dos atletas e, por sorte, eu fui um dos convidados a participar. Com a proposta não tive dúvidas, e a resposta foi um sim instantâneo. Mas, sem dúvidas, um dos maiores atrativos do esporte sempre foi o respeito, que no meu caso sempre foi muito bem passado e aplicado nos treinos quando ainda estava na categoria de base. 

 

RUEPV: Fale um pouco sobre sua carreira.

LA: Em 2007 comecei a jogar na escolinha de Rugby do Jequitibá. Em 2008, com 14 anos, treinava com o time adulto aos fins de semana, mas ainda não jogava. Foi em 2009 que comecei a ter mais frequência de jogos pelo Jequitibá, mas ainda assim era muito novo. Então, jogava também alguns torneios juvenis por um clube da cidade de Vinhedo, federal. Em 2010 comecei a jogar mais pelo Jequitibá, e nesse ano atingimos o vice-campeonato Paulista do interior. Nos próximos anos, a vontade e a competição foram aumentando e, assim, comecei a procurar jogar campeonatos M-19 e clubes que jogassem com o objetivo de ter mais visibilidade para entrar na seleção. Continuei jogando pelo Jequitibá, mas também pelo São José, saindo nesse ano campeão paulista juvenil e sendo convocado, pela primeira vez, para a seleção juvenil. Em 2012 comecei a jogar a primeira divisão do campeonato brasileiro pelo clube SPAC, sendo vice-campeão nessa primeira oportunidade, e campeão no ano seguinte, em 2013. Tive alguns problemas por não ser, na época, um esporte profissional. Voltei para Campinas em 2014 jogando por mais um ano pelo Jequitibá. No ano seguinte, aconteceu a grande mudança no cenário do Rugby nacional, onde o programa de alto rendimento começou, e foi então que consegui voltar a jogar no alto nível, no Brasil. Os jogos da seleção nesse período se intensificaram e o Brasil começou a jogar mais e melhor. Jogou a ARC em 2016, o que fez com desse um salto na qualidade do Brasil. No final do ano fui convidado a jogar na França, e sem pensar duas vezes, decidi que seria o melhor para mim, como jogador, que buscasse níveis mais altos. Joguei uma temporada na Europa e, em 2017, estava de volta ao Brasil, agora dando mais um passo na minha carreira, indo para a poli, que hoje é um dos únicos clubes que buscam a profissionalização no Brasil, sendo campeão paulista, em 2017, pela Politécnica.

 

RUEPV: Quais as maiores dificuldades que você enfrentou até hoje no esporte?

LA: Difícil colocar em ordem ou escolher uma dificuldade maior, até porque a dificuldade num esporte como o Rugby, no Brasil, existe todos os dias. Para mim, a minha maior dificuldade foi logo que eu comecei a jogar, de 14 para 15 anos, quando tive uma lesão muito séria e fiquei um tempo afastado do Rugby. Fiquei afastado de tudo, de cabeça, e não conseguia voltar a jogar e, por isso, fiquei um ano e meio sem jogar. Então, após algum tempo, o pessoal do Jequitibá me chamou de volta, acho que eu tinha entre os 16 e 17 anos, e voltei a jogar pelo adulto. Essa lesão foi muito séria e realmente foi uma grande dificuldade, pois toda minha família, amigos e pessoas que me cercavam, me viam tão novo e já com uma lesão tão grave. Isso sim, me fez tirar o foco do Rugby e me afastar do esporte.

RUEPV: Como é fazer parte da Seleção Brasileira de Rugby?

LA: Bom, para mim, fazer parte da seleção é mais do que ter orgulho pelo o que eu faço todos os dias. Jogar pela seleção, treinar pela seleção e viver a vida de um jogador profissional representando o meu país é motivo de orgulho absoluto. Eu me orgulho muito de estar na seleção, de representar não só o meu país, mas também as pessoas mais próximas a mim, meus familiares e o próprio Jequitibá que me revelou. Até hoje, jogo com um protetor bucal escrito “Jequitibá” honrando, assim, as minhas raízes. Para mim é muita honra fazer parte da seleção.

 

RUEPV: Como vc vê as perspectivas para esse esporte no Brasil?

LA: O Rugby é um esporte excepcional. As perspectivas do Rugby no Brasil são enormes. O Rugby pode passar a ser um dos esportes mais praticados no país, sem dúvida nenhuma. A gente só precisa de mais apoio. É muito difícil no começo para um esporte pouco conhecido receber apoio de todos os lados. As prefeituras não liberam os campos porque têm medo de estragar, e ainda tem todos os problemas que os times já passaram. Então, no começo realmente é um pouco difícil, falta divulgação, falta mídia. Mas, passando esse início que a gente, sem dúvida, vai conseguir superar e, as pessoas conhecendo o Rugby de verdade, não tenho dúvidas de que vai ser um esporte muito praticado no Brasil, vai crescer muito. O profissionalismo no Rugby no Brasil vai ser forte, assim como todos os outros esportes em que o Brasil conseguiu ter sucesso.

 

 

RUEPV: Quais os principais entraves para a disseminação desse esporte no país? O que falta para que se torne um esporte mais praticado e “consumido” pelos brasileiros?

LA: O Rugby é um esporte de difícil disseminação porque é um esporte de contato e, pelo o que eu vejo, não faz parte da cultura brasileira. O brasileiro gosta muito do futebol que é um esporte que abomina o contato. O contato no futebol é quando você é forçado a cavar uma falta e fingir uma lesão para colocar pressão no juiz e ele dar uma falta. Já o Rugby tem essa parte do contato que não é da cultura do brasileiro que se acostumou com o futebol que não gosta e foge do contato. O Rugby precisa ter mais apoio. As pessoas precisam treinar o Rugby desde pequeno. O brasileiro gosta de esportes em que o Brasil ganha e, a partir de quando a seleção brasileira começar a se figurar entre os tops do mundo, os melhores do mundo, com certeza o Rugby vai ser muito mais consumido pelos brasileiros.

 

RUEPV: O que trouxe o Rugby de volta às Olimpíadas depois de quase um século fora? (a última Olimpíada que teve jogos de Rugby foi em 1924, em Los Angeles). Agora, veio para ficar?

LA: O Rugby é um dos esportes mais praticados no mundo e acho que isso pesou muito para a decisão de voltar o Rugby para as Olimpíadas. Sem dúvida que isso pesou muito. O que deixou o Rugby de fora das Olimpíadas no início foi porque a organização de um torneio de XV é muito demorado, pois você tem que dar um tempo de intervalo maior para os atletas se recuperarem de um jogo para o outro porque é um jogo de contato, é muito intenso. Um jogo não pode ser executado a cada dois dias, tem que ser dado de 5 a 6 dias de intervalo entre eles. Sendo assim, para você chegar a uma fase de grupos e até uma final, seria um campeonato muito longo, tendo a duração das Olimpíadas toda, senão até mais. Com invenção e com a disseminação dos Sevens também aumentou muito a chance de o Rugby voltar porque você pode organizar o torneio em um só final de semana. Sendo assim, o Rugby voltou para ficar e, sem dúvida, tendo a modalidade de Sevens, ficou ainda mais interessante para quem não conhece porque é um jogo mais rápido e com muito mais pontuação.

 

RUEPV: O que vc acha dessa iniciativa do projeto RUEPV/Jequitibá em levar o Rugby para escolas públicas? No que esse projeto pode influenciar na vida desses jovens?

LA: O projeto Jequitibá em levar o Rugby para escolas públicas é excepcional, é um projeto que eu sonhava em fazer quando estava em Campinas. Eu sonhava em ter e também fazer parte de um projeto e ter começado isso na minha escola. Eu tentei muitas vezes quando estava em Campinas, ainda quando eu era infantil, juvenil, em levar o Rugby para as escolas, para as que eu estudava, e foi muito sem sucesso porque os professores tinham um grande preconceito principalmente porque é um esporte de contato, tem o risco de lesão e eles não queriam ser criticados por colocar um esporte “violento” como o Rugby nas escolas. Mas, eu acho que é um projeto sensacional.  Fiquei muito feliz quando vi. Eu não estava no Brasil, na época, estava na França. Quando vi que divulgaram esse projeto, fiquei muito feliz mesmo. Campinas é minha cidade. Eu adoraria que tivesse um Rugby mais desenvolvido aqui para que um dia eu pudesse voltar para minha cidade natal e poder jogar e praticar. O Rugby pode mudar muito a vida das pessoas, pois tem valores que são muito fortes. Quase nenhum outro esporte muito praticado no Brasil prega tanto esses valores quanto o Rugby. Então, o Rugby pode adicionar muito na vida dos jovens.

 

RUEPV: Sabemos que dedicar a vida, fazer do esporte uma profissão já é bem difícil no Brasil, ainda mais se tratando de um esporte que não tem tradição e não possui ainda uma grande divulgação. Com isso, qual a principal mensagem que você deixa para aqueles que estão iniciando nesse esporte e focando sua carreira no Rugby?

LA: As dificuldades para qualquer atleta no Brasil existem e em grande número. É muito difícil mesmo ser atleta e ser profissional no Brasil e ainda conseguir viver apenas disso, mas o Rugby é um esporte que tem crescido muito, que tem atraído novos patrocinadores, muitas pessoas, tanto para assistir quanto para apoiar. Quando passa na TV, os jogos são visualizados por milhões de pessoas. Então, eu acho que o Rugby tem muito para crescer e as pessoas que estão começando agora, o conselho que eu dou é que se empenhem e realmente procurem evoluir, sempre dentro dos valores do Rugby, lembrando que tudo o que você aprende na base não se perde no alto rendimento. Acho que é uma estrada que vale a pena seguir porque é muito gratificante ser atleta, é muito gratificante jogar pela seleção, representar, sair pelo seu país. Nada é mais importante para mim, hoje, do que representar o meu país, do que levar a bandeira do meu país no peito e ter esse orgulho mesmo que eu tenho de estar representando não só as pessoas que jogam Rugby, mas também as que não conhecem o Rugby.

 

Ficha técnica do jogador:

Apelido: Abud
Idade: 23   Data Nasc: 26/ago/1993
Naturalidade: São Paulo, SP
Peso (Kg): 117.00   Altura (m): 1.85
Clube: Poli
Pratica desde: 2007
Posição: Pilar
Seleção desde: 2011